terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rostos

 

“Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários” (Rilke).

Rilke escreve em um tempo de transição mas sua acuidade é válida até hoje, é lugar comum descartar-se o valor “verdade” mas nem sempre foi assim e a constatação sobre os rostos é a prova desta novidade sobre a subjetividade, quero dizer, que ela é multifacetada.

A questão que se coloca então é: qual a conseqüência da dissolução do valor “verdade” para a vida do homem? Contudo, devemos entender que o valor “verdade” significa a afirmação de que a verdade é possível de ser conhecida em sua substância, ou seja, em sua totalidade.

A admissão do valor “verdade” implica em aceitar que existe uma, e apenas uma, maneira correta de compreender a realidade. Não questiona-se aqui, entretanto, qual o meio pelo qual esta maneira é descoberta (revelação divina, racionalidade, eleição, experiência, etc.).

Em suma o valor “verdade” é a afirmação de que, embora tenham muitos, cada pessoa só tem uma face que reflete a substância das coisas, ou seja, uma face a que é permitida viver a vida como ela realmente é.

Esta maneira de apresentar o problema é por demais representativa da vida que vivemos, ou seja, da aversão à existência deste rosto que deve ser plano e irredutível em sua gravidade, porém tal possibilidade está fundada na necessidade de encontrar um critério. O valor “verdade” estabelece um ´código comunicativo em que somos capazes de compreender uns aos outros e, em última instância, julgar os parâmetros éticos da vida em comunidade.

A contrário senso a inexistência deste valor corresponde à inexistência de um critério absoluto e, conseqüentemente, à pergunta por um valor que substitua este valor “verdade”. Isto significa insegurança acerca de qual caminho devemos seguir mas também a restituição do direito de trilhar um caminho, ou seja, de estar num caminho à caminho.

Como pode-se ver a existência de muitos rostos, ou seja, a complexificação da vida implica em muitas questões para as quais não temos respostas mas a própria possibilidade de coloca-lás é uma inquietação para a qual devemos nos atentar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Liquefação

 

Mesmo a inquietação de nosso tempo é inquieta. Inquietar-se é estar incomodado com algo mas ocorre que este estar incomodado, em nosso tempo, reside um incomodo subjacente, ou seja, uma não aceitação desta condição vital de se incomodar.

Em tempos de tecnologia a circulação de informação é, como dizem, em “tempo real” contudo a capacidade de assimilar tal enxame não é “em tempo real”. Desta forma somos convocados a dar respostas a circunstâncias inquietantes acompanhando a velocidade do mundo e é a isto que nomeei inquietação da inquietação.

Esta representa a necessidade de produzir um discurso, assumindo que somos parte ativa da comunidade, em que fica nítida a diferença entre a fala, as palavras, e o dizer, seu significado. Isto por que desde a queda da idéia de sistema explicativo da realidade perdeu-se, aos poucos, a urgência pela reflexão.

A perda do anseio pela reflexão significa, por seu turno, a perda do vigor e a isto nomeei liquefação, sem qualquer novidade ou originalidade. A perda do vigor é a transformação das relações significativas, digo, a pergunta pelo sentido de nossa existência, em última instância.

Nisto liquefaz a compreensão que temos do mundo e de nós mesmos emaranhada num contingente infindo de informações e necessidades a que não temos capacidade para resolver. Isto não quer dizer que devamos voltar aos sistemas holísticos mas que algo precisa servir como meio de recuperar o vigor da nossa compreensão da realidade, pelo bem de nossa saúde emocional.

Diante da liquefação da nossa realidade interior e exterior é que vemos os fenômenos de adesão a religiões e propagação de clichês, a chamada criação dos formadores de opinião que é, de fato, somente o instinto de rebanho.