“Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários” (Rilke).
Rilke escreve em um tempo de transição mas sua acuidade é válida até hoje, é lugar comum descartar-se o valor “verdade” mas nem sempre foi assim e a constatação sobre os rostos é a prova desta novidade sobre a subjetividade, quero dizer, que ela é multifacetada.
A questão que se coloca então é: qual a conseqüência da dissolução do valor “verdade” para a vida do homem? Contudo, devemos entender que o valor “verdade” significa a afirmação de que a verdade é possível de ser conhecida em sua substância, ou seja, em sua totalidade.
A admissão do valor “verdade” implica em aceitar que existe uma, e apenas uma, maneira correta de compreender a realidade. Não questiona-se aqui, entretanto, qual o meio pelo qual esta maneira é descoberta (revelação divina, racionalidade, eleição, experiência, etc.).
Em suma o valor “verdade” é a afirmação de que, embora tenham muitos, cada pessoa só tem uma face que reflete a substância das coisas, ou seja, uma face a que é permitida viver a vida como ela realmente é.
Esta maneira de apresentar o problema é por demais representativa da vida que vivemos, ou seja, da aversão à existência deste rosto que deve ser plano e irredutível em sua gravidade, porém tal possibilidade está fundada na necessidade de encontrar um critério. O valor “verdade” estabelece um ´código comunicativo em que somos capazes de compreender uns aos outros e, em última instância, julgar os parâmetros éticos da vida em comunidade.
A contrário senso a inexistência deste valor corresponde à inexistência de um critério absoluto e, conseqüentemente, à pergunta por um valor que substitua este valor “verdade”. Isto significa insegurança acerca de qual caminho devemos seguir mas também a restituição do direito de trilhar um caminho, ou seja, de estar num caminho à caminho.
Como pode-se ver a existência de muitos rostos, ou seja, a complexificação da vida implica em muitas questões para as quais não temos respostas mas a própria possibilidade de coloca-lás é uma inquietação para a qual devemos nos atentar.
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